História do Forex

A história forex se confunde com a história do capitalismo e da sociedade moderna. A seguir apresentamos um breve histórico com alguns dos principais acontecimentos da “era moderna” do Forex. Fatos que nos levaram esse mercado como ele é hoje.

O padrão ouro

A adoção do sistema monetário “padrão ouro” em 1880 é uma dos eventos mais importantes na história do mercado forex. Antes do padrão se criado, países geralmente utilizavam ouro e prata como método de pagamento internacional. O principal problema nisso é que o valor desses metais é muito afetado pela oferta. Por exemplo: a descoberta de uma uma nova mina de ouro fazia com que os preços caíssem.

A idéia por trás do padrão ouro era que os governos garantiram a conversão de suas moedas em uma quantidade específica de ouro, e vice-versa. Em outras palavras, uma moeda era garantida pelo ouro. Obviamente, governos precisavam de uma reserva substancial de ouro para atender as demandas de conversão. Durante o final do século XIX, as economias de todos os principais países haviam adotado o padrão e “atrelado” suas moedas ao valor da onça de ouro. Ao longo de tempo, a diferença no preço de uma onça de ouro entre duas moedas se tornou a taxa de câmbio para essas duas moedas. Isso representou a primeira maneira oficial de se realizar câmbio de moedas (forex) na história.

O período de 1880 a 194 é conhecido como a época do padrão ouro clássico. Durante esse tempo, a maioria dos países aderiu ao ouro. Também foi um período de crescimento econômico sempre precedentes e de forte comércio de mercadorias, trabalho e capital entre as nações.

O padrão eventualmente deixou de existir durante o início da Primeira Guerra Mundial. Devido à crescente tensão política com a Alemanha, as outras potências européias sentiram a necessidade realizar grandes projetos militares, e para isso começaram a “imprimir” mais dinheiro para ajudar a pagar por esses projetos. O peso financeiro desses projetos foi tão grande que não havia ouro suficiente à época para trocar por toda esse dinheiro.

Ainda que o padrão ouro tenha voltado rapidamente durante os anos entre as grandes guerras, a maioria dos países deixou de utilizá-lo na iminência da Segunda Guerra.

Bretton Woods 1944. O Dólar Americano se torna a moeda de reserva do mundo.

Em julho de 1944, com a Segunda Guerra Mundial ainda ocorrendo na Europa e Sudeste Asiático, 730 representantes das 44 Nações Aliadas se reuniram no Mount Washington Hotel em Bretton, New Hampshire, EUA, para a Conferência monetária e financeira das Nações Unidas.

Bretton Woods (BW) foi uma tentativa de chegar a consenso em como governar a economia internacional no pós-guerra, e também discutir as políticas isolacionistas de discriminação econômica e comercial, que acreditava-se terem contribuído para as duas Grandes Guerras e para a Crise de 1929.

O encorajamento de um fluxo de comércio mais livre entre as nações era uma dos principais pontos da conferência. Era essencial para o acordo a criação de um sistema internacional de pagamentos para facilitar o comércio e sistemas proteção para prevenirem grandes flutuações nos valores da moedas ou desvalorizações competitivas. Por todas essas razões o acordo de Bretton Woods foi um grande marco no desenvolvimento do mercado de forex, e do sistema financeiro global que possuímos hoje.

Foi a primeira vez que um sistema monetário foi negociado detalhadamente entre os estados nação, e ainda que muitos dos pontos principais do sistema Bretton Woods já tenham sido abandonados, seu legado está nas instituições que ele deu nascimento. O acordo que foi assinado em Bretton Woods (BW) em 22 de julho de 1944 levou à criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e parte do Banco Mundial, entre outras instituições.

Parte central do acordo foi um sistema de taxas de câmbio fixas entre países os quais os valores de suas moedas foram atrelados ao Dólar, e o Dólar seria a partir de então conversível a ouro a uma taxa fixa de U$35/onça. Isso efetivamente fez com que o dólar se tornasse a moeda de reserva do mundo na medida em que ele assumiu o papel que o ouro possuía antes, no “padrão-ouro”. Além de se tornar “a moeda do mundo”, o dólar se tornou a moeda com maior poder de compra, devido à sua convertibilidade ao outro.

Keynes (centro) foi um dos atores principais no acordo de Bretton Woods.

Além disso, da maneira como as moedas estavam “indexadas” ao dólar americano (USD), cada uma num valor específico, significava que a maioria das transações internacionais seriam denominadas em USD. Levando-se em consideração que ao final da Segunda Guerra a maioria das potências européias devia aos EUA, o clima geopolítico favoreceu que os Estados Unidos se consolidassem como uma super potência; Tomando um papel que era dos britânicos durante os século XIX e começo do século XX: o ter a moeda que era utilizada como a “moeda de reserva” pelo mundo todo.

Pós Bretton Woods. A ascensão do Capitalismo de Livre Mercado

O acordo de Bretton Woods duraria até 1971, quando foi suplantado pelo curto Acordo Smithsoniano intermediado pelo então presidente dos EUA, Richard Nixon. No entanto a “era de ouro” do Bretton Woods só durou na verdade até 1968. Até esse momento houve uma melhoria constante na produção e comércio global, e de 1959 em diante todas as moedas que faziam parte do acordo desfrutavam de total convertibilidade.

Mas era a relação do dólar com o ouro que se provaria o real problema que eventualmente viria a desequilibrar o sistema. Isso e o fato de que os Estados Unidos estavam começando a apresentar um grande déficit de pagamentos para ajudar a recuperação européia e manter o sistema financeiro líquido. Economistas previram isso com mais de uma década de antecedência, e realmente a questão de manter o ouro a U$35 por onça era um problema real já a partir do final da década de 1950.

O principal problema com o Bretton Woods foi provavelmente melhor colocado em 1960 por Robert Triffin, um economista que escreveu o que depois ficaria conhecido como o dilema de Triffin. De maneira simplificada, o dilema dizia que o déficit dos EUA era vital para o crescimento econômico e para a liquidez do mercado financeiro, mas eventualmente esse mesmo déficit que estava ajudando a Europa pós-guerra a se recuperar estava fadado a minar a confiança no Dólar americano como moeda de reserva mundial, e poderia eventualmente levar a uma desestabilização financeira generalizada.

O dólar era a única moeda que possuía convertibilidade com o ouro, e ao final da Segunda Guerra os EUA mantinham aproximadamente 65% das reservas de ouro globais. No entanto, a inflação havia levado a um contexto no qual não era economicamente viável produzir muito mais ouro, mais dólares inundavam o sistema financeiro global, e as reservas de ouro americanas dificilmente dariam conta. A confiança no dólar começou a diminuir na medida em que se tornava aparente que os EUA não seriam capazes de arcar com seus compromissos se todos que possuíssem dólar desejam convertê-los em ouro.

Além disso, o fato de que havia um livre mercado no qual o ouro era negociado (separado das transações conduzidas por bancos centrais sob as taxas do Bretton Woods), levou à situação na qual era mais barato comprar ouro no valor do Bretton Woods do que vendê-lo no mercado aberto.

Em 1971 os EUA só possuíam ouro suficiente para cobrir 22% das reservas estrangeiras de Dólares e estava com déficit de U$56 bilhões em suas reservas. Some a isso a crescente dívida pública do país e tornava-se claro que o sistema do Bretton Woods não podia ser mantido. Em novembro de 1967 o Reino Unido desvalorizou a Libra de $2,80 para $2,40. Em novembro de 1968 uma crise de câmbio levou ao fechamento dos mercados na França, Alemanha e Inglaterra. Em agosto de 1968 o Franco francês foi desvalorizado de 0,18 gramas de ouro por franco para 0,16 gramas. Em outubro do mesmo ano o Deutsche Mark (da Alemanha) foi reavaliado de $0,25 para 0,273. Finalmente em maio de 1971 o Marco Alemão e a moeda Holandesa passaram para câmbio flutuante.

Em agosto de 1971, Nixon removeu a convertibilidade do Dólar com Ouro, impôs uma taxa de importação de 10% e congelou os preços. Isso ficou conhecido como o “Choque de Nixon” e fez com que as moedas de todas a potências econômicas (à exceção da França) passassem para o câmbio flutuante.

Em dezembro de 1971 o acordo Smithsoniano foi assinado pelos países do G-10. Foi uma tentativa de manter o Sistema Bretton Woods vivo ao definir novamente as taxas de câmbio fixas e ajustá-las para valores que refletiam melhor as pressões de mercado do começo da década de 1970. O dólar foi re-atrelado ao ouro no novo preço do U$38 por onça e foi permitido que esse valor flutuasse dentro de uma margem de 2,25%, ao invés dos 1% permitido pelo Bretton Woods, com outras nações concordando em re-ajustar suas taxas de câmbio fixas ao recém desvalorizado Dólar.

A grande diferença do Acordo Smithsoniano para o Bretton Woods era que o U$ não era mais conversível em ouro. Ainda que o acordo tenha ajustado a relação entre as moedas do mundo, ele não resolveu os desequilíbrios fundamentais que levaram à desvalorização do dólar. Os EUA continuaram com um déficit gigantesco e aumentando sua oferta monetária numa taxa inflacionária, isso levou outros bancos centrais a se verem forçados e interferirem no mercado de forma a evitar que suas próprias moedas se valorizassem, mas suas moedas ainda estavam atreladas ao dólar a uma taxa cambial fixa.

Em 1972 a libra esterlina finalmente foi liberada para flutuar em relação ao dólar. Um aumento no valor do ouro fez com que o dólar tivesse que ser revalorizado novamente em fevereiro de 1972 para o valor de U$42,22 por onça (fazendo com que todas as outras principais moedas também mudassem de valor frente ao dólar).

Em março do mesmo ano, depois de gigantescas intervenções de bancos centrais europeus (custando perto de U$3,5 bilhões), o sistema de taxas cambiais fixas entrou em colapso completamente e o valor do Dólar americano passou a ser desde então determinado pelo livre mercado.

OPEP e a crise do petróleo de 1973

Até agora nós deixamos de olhar para um participante importante em nossa história. Se o ouro impacta fortemente a história do Forex, então o petróleo, como roda vital para a indústria, certamente merece uma sessão própria. Dizer que o capitalismo de livre mercado como conhecemos não teria sido possível sem o petróleo não é exagero. O ouro pode ter gozado de um período no qual era a espinha dorsal do sistema monetário internacional, mas o crescimento de nossa economia global foi de forma literal e figurada derivada do petróleo.

A entrada tardia dos EUA na Segunda Guerra Mundial, sua capacidade financeira a partir de então, e seu status como país dono da moeda de reserva após a assinatura do Bretton Woods, são comumente citados como fatores que contribuíram para sua elevação ao status de super-potência. Mas os Estados Unidos não emergiu de repente, com muito da Europa em débito com eles e sua moeda assumindo papel central no sistema monetário internacional.

A ascensão dos EUA coincidiu com a descoberta de suas próprias reservas de petróleo, que rapidamente substituíram carvão como a fonte primária de energia do país. O século XIX pertenceu ao império britânico; um império, vale ser notado, impulsionado por carvão. O século XX pertenceria aos EUA, e seria o século do petróleo.

Como pano de fundo para os eventos que já apresentamos, é importante ter em mente que os anos pós-guerra viram uma crescente demanda por petróleo. Entre o final da Segunda Guerra e a queda do Acordo Smithsoniano o consumo global de petróleo triplicou, e a demanda quintuplicou. Depois da Guerra o petróleo passou a substituir rapidamente o carvão; era abundante, barato, mais fácil de transportar e também dava vantagem competitiva em termos de produtividade a países que optaram por fazer a mudança (de matriz energética). Milhões e milhões de barris foram exportados do Oriente Médio e Venezuela, abastecendo a reconstrução pós-guerra, recuperação econômica e crescimento global.

A absorção generalizada do petróleo também teve o efeito de gradualmente mudar o equilíbrio de poder, fazendo com que vários países se tornassem cada vez mais dependentes de uma oferta constante e barata vinda das nações produtoras de petróleo. A primeira vez que os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) tentaram utilizar o que ficou conhecida como a “arma petróleo” foi no início de junho de 1967, um dia após o início da Guerra dos Seis Dias.

Em respostas às incursões de Israel ao Egito, Jordânia e Síria os membros da OPEP criaram um embargo de petróleo contra todos países que dessem apoio a Israel e em poucos dias a oferta de petróleo árabe havia diminuído em aproximadamente 60%. A situação ameaçou piorar quando uma guerra civil começou na Nigéria no mês seguinte, removendo diariamente outros 500.000 barris de óleo cru da cadeia mundial de oferta.

O primeiro embargo de petróleo foi curto e teve pouco sucesso porque os países consumidores possuíam reservas. No entanto, a segunda tentativa da OPEP de mostrar suas força teve um efeito muito mais desestabilizante.

Entre 1967 e 1973 a dependência da economia mundial em petróleo barato reduziu a capacidade de excedente a níveis perigosamente baixos. Em 1970, havia a capacidade de aproximadamente 3 milhões de barris excedentes por dia, em 1973 esse número diminuiu para 500.000 por dia. Portanto quando a OPEP sacou a “arma petróleo” pela segunda vez em 17 de outubro de 1973, suas chances de sucesso era bem maiores do que em 1967.

OPEP e o Forex

Reunião da OPEP em 1974

Um número de fatores convergentes contribuíram para a crise do petróleo de 73. Tensas negociações entre a OPEP e companhias petroleiras do ocidente em relação ao preço e à produção vinham se arrastando por algum tempo. Além disso, quando o Presidente Richard Nixon pôs um fim ao Bretton Woods em 1971, removendo a convertibilidade do Dólar em Ouro, a inevitável desvalorização do Dólar em consequência afetou os países produtores de petróleo pois esse era (e ainda é) precificado em Dólares americanos.

Some a isso o fato de que a produção petrolífera dos EUA atingiu seu ápice de produção perto de 10 milhões de barris/dia em 1970 (e declinou desde então), e que em 1973 os Estados Unidos estavam importando 6 milhões de barris por dia, tornando-os extremamente vulneráveis a interrupções na oferta, e você tem as condições ideais para uma tempestade perfeita.

Em outubro de 1973, durante o feriado judeu Yom Kipur, Egito e Síria invadiram territórios israelenses que haviam sido anexados por Israel durante a Guerra dos Seis Dias. Em 17 de outubro, em resposta ao apoio dos EUA durante o conflito, a OPEP aumentou o preço do petróleo em 70%, e impôs um embargo aos Estados Unidos e outros países que apoiaram Israel.

A Guerra terminaria no final de outubro, mas a OPEP recusou a mudar seu rumo. Em novembro do mesmo ano a OPEP cortou a produção de petróleo em 25%, e depois mais 5%. Em dezembro o preço do petróleo foi dobrado novamente. Em janeiro, quando israel concordou em remover suas tropas do leste do Canal de Suez, o preço do petróleo estava quatro vezes mais alto do que antes da crise começar.

A atitude dos produtores de petróleo durante esse período pode ser resumida pela memorável falar do Shah do Iran que foi publicada pelo New York Times em dezembro de 1973:

“É claro que [o preço do petróleo] vai subir… Com certeza! Vocês [do ocidente] aumentaram o preço do trigo que vendem para nós em 300%, e também o preço do açúcar, cimento… Vocês compram óleo cru e nos vendem de volta, refinado como petroquímicos, a cem vezes o preço que nos pagaram… É totalmente justo que, de agora em diante, você paguem mais pelo petróleo. Digamos dez vezes mais.”

O Iran não participou do embargo, continuando a enviar petróleo para o ocidente durante o conflito, mas estava claro que a era do petróleo barato havia acabado e todos sabiam disso.

A crise do petróleo mudou o cenário geopolítico e a economia global de diversas maneiras importantes. O preço inflado nos quais as nações da OPEP passaram a vender seu petróleo depois do embargo fez com que o crescimento econômico desacelerasse no ocidente e causou inflação, uma situação que ficou conhecida como “estagflação”. Além disso, a quadruplicação no preço gerou um grande fluxo de capital do Ocidente para os países produtores de petróleo do Oriente Médio, que em grande parte foi gasto em armas e tecnologia, aumentando as tensões na região e levando a uma crescente presença militar norte americana.

O preço do petróleo, assim como sua oferta constante, passaram a figurar fortemente nas “agendas” das nações industrializadas, assim como o choque causado pelo embargo. Pode parecer óbvio hoje, mas mesmo que houvessem sinais claros de uma possível crise, o preço e oferta do petróleo não haviam sido motivo de preocupação antes de 1973. Hoje em dia o equilíbrio de oferta e demanda é tão delicado que é importante para você como trader de Forex entender como as moedas estão co-relacionadas com os preços do petróleo, assim como é importante ficar de olho em qualquer evento global que possa impactar a oferta.

Finalmente, a crise do petróleo de 1973 também fez com que a economia de energia, algo totalmente fora de cogitação à época, se tornasse uma prioridade que só cresceu desde então.

Intervenção Cooperativa dos Bancos Centrais. O acordo de Plaza de 1985

Você deve ter observado uma interessante dinâmica funcionando na breve história do forex que apresentamos até agora; um certo vai-e-vem entre a necessidade de exercer regulação e controle, versus uma abordagem laissez-faire na qual se permite que o livre mercado se auto-regule. Se você percebeu isso, está correto. As duas forças opostas estão sempre presentes, com proponentes da primeira abordagem fazendo mais “barulho” quando crises econômicas se aproximam, e aqueles que advogam a segunda abordagem costumam ter um reinado livre quando tudo vai bem na economia global.

Os medos que levaram ao Bretton Woods (BW) em primeiro lugar, e ao Nixon querer manter taxas de câmbio fixas com o acordo Smithsoniano, eram precisamente de que se os mercado fossem deixados a regularem a si próprios a competição pela desvalorização de moedas concorrentes e outras práticas de comércio antagônicas levariam uma instabilidade mundial. De forma contrária, as deficiências do BW e acordo Smithsoniano ficaram óbvias diante de um mercado relutante, ou incapaz, de ser “travado” pelas relações fixas que foram impostas para regulá-lo. E novamente o período entre as taxa flutuante das mais importantes moedas do mundo e o Acordo de Plaza desbancaria o mito de que dinâmicas de oferta e demanda são tudo o que é necessário para se regular um mercado eficiente.

Nós já nos debruçamos sobre as primeiras crises que afetaram a economia global depois do abando do BW em 1971. O aumento estrondoso do preço do petróleo depois da crise de 1973 resultou num aumento dos gastos com importações por parte das nações industrializadas, prejudicando seus balanços de pagamentos. Lembre que o petróleo é precificado em dólares, portanto a reciclagem de dólares mantidos pelas nações da OPEP (reciclagem de petrodólares) inevitavelmente levou a uma apreciação do dólar mesmo que os EUA continuassem a apresentar um déficit comercial substancial.

No final da década de 1970 o dólar viria a cair na medida em que esse aumento no déficit erodiu a confiança dos investidores. Isso foi exacerbado pela revolução iraniana e o segundo choque do petróleo em 1979, quando a OPEP mais uma vez subiu o preço do petróleo. Entretanto, no início da década de 80 o viés de aumento de taxa de juros (hawkish) do então presidente do FED Paul Volcker, combinado com um renovado interesse no dólar como moeda forte (safe haven) depois do começo da guerra Iran-Iraque, ajudou que a força do dólar retornasse.

O ano de 1980 também seria um divisor de águas para o petróleo na medida em que o aumento da produção da União Soviética, Venezuela, México, Nigéria e entrada do petróleo do Alaska e Mar do Norte, precipitaram o começo de um declínio de 20 anos no preço da commodity, e um “amolecimento” da OPEP.

O mandato de Volcker teve sucesso em superar a estagflação ao aumentar as taxas de juros, ainda que uma consequência indesejável de suas políticas tenha sido uma sobre-valorização do dólar. Isso fez com que as exportações dos EUA se tornassem caras e pouco competitivas (especialmente carros americanos), enquanto importações se tornaram baratas, o que pôs mais peso na balança comercial do país. Entre 1980 e 1985 o dólar se valorizou aproximadamente 50% em relação ao iene, marco alemão, libra e franco francês.

O acordo de Plaza, assim chamado por ter sido assinado no hotel Plaza em Nova Iorque, foi uma tentativa de colocar as economias dos EUA, Japão, Alemanha Ocidental, Reino Unido e França de volta em sincronia ao desvalorizar o dólar. Quando o acordo foi feito o déficit da balança corrente dos EUA atingia perto de 3,5% do PIB do país, enquanto sua economia crescia em torno de 3%. A Europa por outro lado tinha um grande excedente comercial e apresentava um crescimento negativo perto de -0,7%. Para re-equilibrar essa balança, o G-5 acordou uma conjunto de cortes em impostos e gastos públicos, expansão do setor privado e abertura dos mercados.

Ao longo dos anos seguintes o Dólar se desvalorizou perto de 50% em relação às outras nações do G-5. Em 1987 o Iene japonês foi de 242 por dólar para 150 por dólar. O déficit comercial dos EUA com a Europa foi significativamente reduzido, ainda que a redução não tenha ocorrido em relação ao Japão.

O dólar continuaria a cair além dos alvos combinados, fazendo com que o agora G-6 negociasse o Acordo do Louvre, o qual era um esforço para interromper o declínio do dólar. Isso se provaria uma proposição muito mais complicada do que a desvalorização conseguida com o Acordo de Plaza. Isso porque o dólar já estava no meio de uma tendência de baixa quando o Acordo de Plaza foi assinado. Por outro lado, o Acordo do Louvre tentava reverter uma tendência já bem estabelecida e para fazê-lo seria necessário uma coordenação das políticas econômicas das seis maiores economias do mundo. Em 1988 o dólar valia 121 Ienes e 1,57 Marcos alemães. Um drástico aumento nas taxas de juros dos EUA era a única coisa que poderia parar essa queda e fortalecer o dólar.

O Acordo de Plaza foi um marco histórico importante no desenvolvimento do mercado Forex. Foi a primeira vez que as nações acordaram em intervir ativamente de uma maneira coordenada de modo a afetar os valores das moedas, foi um exemplo de como as intervenções dos bancos centrais podia ser orquestrada através de fronteiras nacionais de forma a atender interesses da economia global. Também foi um momento na história quando as amplas consequências da globalização ficaram expostas para todos, e os mercados mostraram que ocasionalmente precisam de uma “mão” os guinado para funcionem bem e de forma eficiente.

A crise de débito da América Latina

Nos anos 80 grande parte da America Latina foi afetada uma severa crise de débito que arruinou vidas e tirou oportunidades de milhões de cidadãos, e essa ficou conhecida como “A década Perdida”.

Até agora estivemos rascunhando um modelo da economia global, acompanhando desde a forma que se criou o Bretton Woods até a realidade global dos dias de hoje na qual uma única surpresa pode ter consequências no mundo todo. Vimos como uma commodity valiosa nas mãos de poucos pode ser usada como arma, vimos as dinâmica vai-e-vem entre regulação e livre-mercado, e observamos como bancos centrais podem se coordenar para afetar os mercado de câmbio. Uma das coisas que você vai observar à medida que se aprofunda nos mercados é tanto a tentativa de controlá-lo quanto a deixá-lo por conta própria levam a resultados indesejáveis.

Uma das consequências da crise do petróleo da década de 1970 veio como resultado da “reciclagem do petrodólar”. O fato do petróleo ser precificado em dólar levou as nações da OPEP a acomular uma grande riqueza quando os preços do óleo foram drasticamente aumentados. O petrodólares da OPEP inevitavelmente encontraram seu caminho de volta para o sistema bancário, parcialmente graças ao fato de muitas das nações da OPEP terem optado por não reinvestir esse capital em suas próprias infraestruturas.

O maciço influxo de depósitos de petrodólares aumentou significativamente a capacidade de emprestar dos bancos, e como a demanda por empréstimo entre as nações industrializadas caiu durante a recessão, grande parte desse dinheiro foi emprestado para os países da América Latina que passavam por uma rápida industrialização.

A América Latina viva um boom nas manufaturas desde 1930. Suas economias recém industrializadas estavam focadas em romper sua dependência na importação de bens de consumo dos países desenvolvidos construindo uma indústria doméstica para atender a essa demanda. Esse processo de industrialização visando a substituição de importações trouxe rápido crescimento a países como o México, Brasil e Argentina, mas começava a chegar a um teto em termos de possibilidade de crescimento futuro sem a renovação de investimento na manufatura de produtos mais “pesados” como automóveis.

A disparada do petróleo durante a crise de 1973  levou os produtores de petróleo da América do Sul a aproveitarem a brecha deixada pela OPEP e exportaram grande parte de seu petróleo para os Estados Unidos. Essa situação estava condenada a ser bem curta no entanto, na medida em que os preços inflados baixaram depois da crise e a produção cresceu novamente no Oriente Médio. Diante disso economias como a do México se tornaram economicamente instáveis. Outros países sul americanos que eram importadores de petróleo sofreram com as contas de combustíveis durante a crise e tiveram dificuldade em pagar suas dívidas quando os credores do norte aumentaram suas taxas de juros.

A escolha de continuar perseguindo industrialização voltada à substituição de importações ao invés de fazer um transição para economias exportadoras, foi talvez parcialmente decidida pelo clima econômico global daquele momento. A recessão severa que abatera os países desenvolvidos com o “choque do petróleo” fez com a demanda por importações caísse drasticamente, assim como a demanda por matérias primas brutas, o que também abalou o mercado de exportação da América do Sul.

Com as taxas de juros subindo no ocidente, especialmente nos EUA, o custo para pagar esses empréstimos subiu consideravelmente. O aumento da taxa de juros também ajudou a restaurar a confiança no dólar, o que pôs pressão nas taxas cambiais das moedas latino americanas, aumentando ainda mais o valor de seus débitos e o custo de seus refinanciamentos. De 1975 a 1983 a dívida da America Latina foi de U$75 bilhões para U$315 bilhões, sendo que esse valor era aproximadamente 50% do PIB da região. O custo anual do pagamento dessas dívidas também subiu de U$12 bilhões em 1975 para U$66 bilhões em 1982

Em agosto de 1982 foi anunciado pelo ministro da fazenda do México, Jesus Silva-Herzog, que o país não teria condições de continuar pagando os empréstimos. O mercado de empréstimos implodiu-se da noite para o dia. Bancos comerciais pararam de emprestar para a região e como muitas das dívidas eram de curto prazo por natureza o fato dos bancos não aceitarem refinanciá-las fez com que esses países tivessem que pagar bilhões de dólares de uma só vez.

A crise resultante foi a pior na história da região. O desemprego aumentou, rendas e poderes de compra despencaram, o crescimento parou e a pobreza aumentou quando programas sociais foram abandonados em favor do pagamento das dívidas.

1980 – A década perdida

Entre 1982 e 1985 as economias da América Latina contraíram próximo de 9%. Para re-financiar os empréstimos existentes os países foram obrigados a aceitar condições muito mais rigorosas e também tiveram que permitir que o Fundo Monetário Internacional (FMI) entrasse no jogo introduzindo medidas de austeridade e reformas nacionais, dentre as quais as mais notáveis estavam o abandono das políticas de industrialização em favor do capitalismo de livre mercado e a privatização de suas indústrias e gigantes estatais.

A crise financeira asiática de 1997

A crise financeira asiática ocorreu em 1997-98 e revelou como o mercado global de moedas está interconectado. Um dos temas recorrentes nessa breve história do mercado forex foi como bancos centrais e governos têm buscado intervir nos mercados; a crise asiática revelou de uma vez por todas como essas instituições podem ser impotentes quando tentam agir contra avassaladoras forças do mercado e “fundamentos” insustentáveis.

Logo antes dessa crise as economias do sudeste asiático eram particularmente atrativas para investidores devido às suas impressionantes taxas de crescimento. Os quatro tigres asiáticos (Hong Kong, Singapura, Coréia do Sul e Taiwan) rapidamente se desenvolveram em formidáveis economias globais especializadas em finanças e manufaturas, seguidas de perto pelas economias que ficaram conhecidas como filhotes de tigres (Malásia, Indonésia, Tailândia e Filipinas).

Essas economias em particular estavam expandindo rapidamente e atraindo uma grande quantidade de investimento especulativo em função das altas taxas de juros que mantinham. A Tailândia era um milagre econômico, vivendo crescimento perto de 10% ao ano por mais de uma década. O país também se provaria como o “elo fraco” e eventualmente o gatilho da crise.

As causas precisas da crise são, obviamente, diversas e ainda provocam debate; no entanto uma combinação de capital puramente especulativo (hot money), práticas de empréstimo ruins, déficits das balanças correntes, a desvalorização do Iene (japonês) e do Renminbi (moeda chinesa), e a recuperação dos EUA de uma recessão são fatores que podem ter contribuído.

Um enorme fluxo de investimento estrangeiro foi levado para a região sendo que grande parte desse capital estava disponível para empréstimos voltado ao desenvolvimento e acabaram nas mãos de indivíduos com laços nepotistas com os governos e bancos, ao invés de irem para aqueles que tinham melhores condições de pagar esses empréstimos. Tailândia, Coreia do Sul e Indonésia apresentavam déficits robustos, e o da Tailândia em especial representava aproximadamente 8% do PIP do país e era perto de U$15 bilhões antes da quebra (crash).

Na esteira do Acordo de Plaza a desvalorização do Iene e do Renminbi e o subsequente fortalecimento do dólar fizeram com que as exportações asiáticas se tornassem bem menos competitivas. Isso exacerbou os déficits nas balanças correntes da região. Some-se a isso os aumentos de taxas de juros do FED (banco central americano) que levaram o capital de volta para a economia americana, e você tem uma convergência de circunstâncias que geraram uma grande perda de confiança, resultando nos ataques especulativos de 14 e 15 de maio de 1997, que causaram a desvalorização do Baht (moeda Tailandesa).

Uma falta de reservas cambiais fez com que o governo tailandês fosse incapaz de segurar o Bath diante desses ataques. A moeda eventualmente foi convertida para câmbio flutuante em 2 de julho de 1997, e abruptamente perdeu mais da metade de seu valor enquanto o mercado de ações do país despencou em 75%.

Com alguns meses da quebra Tailandesa, a Rúpia indonésia e o mercado de ações desse país atingiram mínimas históricas, causando que o PIB do país tivesse uma contração de aproximadamente 13,5% naquele ano.

O Won sul-coreano  também perdeu mais de metade de seu valor relativo ao dólar, o rating de crédito do país foi rebaixado e sua indústria automotiva foi mantida viva graças a uma série de fusões e aquisições.

Essas três economias foram mais fortemente afetadas pela crise, e foram beneficiárias de uma iniciativa de U$30 bilhões do FMI para restaurar o equilíbrio econômico na região. No entanto o efeito em cascata da crise foram longe e levaram a uma desaceleração econômica geral que pôde ser sentida em todo o mundo. Investidores ficaram cada vez mais aversos a risco quando se tratava de mercado emergentes. A desaceleração subsequente também causou uma queda no preço do petróleo e foi um fator que contribuiu para a crise financeira russa de 1998.

Na década que se seguiu à crise asiática muitos países na região tomaram medidas para serem menos dependentes de capital especulativo (hot money) para estimular suas economias. Eles também passaram a manter superávits em suas balanças correntes e criaram reservas cambiais para serem capazes de apoiar suas respectivas moedas no evento de futuros ataques especulativos. Como resultado direto dessas medidas a Ásia estava muito mais preparada para suportar a crise econômica de 2008.


Compartilhe


Conheça