CPI da Austrália aponta inflação resistente em fevereiro, reforçando a perspectiva hawkish do RBA

O Instituto Australian Bureau of Statistics (ABS) divulgará o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) de fevereiro na próxima quarta-feira, às 00:30 GMT. A inflação deve se manter em 3,8% ao ano, com leitura mensal praticamente estável. A divulgação ocorre em um momento em que o Reserve Bank of Australia (RBA) já elevou a taxa básica para 4,10%, evidenciando preocupações com pressões inflacionárias persistentes. Os formuladores de política permanecem atentos a possíveis efeitos de segunda ordem, enquanto os mercados já projetam outra alta nos próximos meses.

Paralelamente, tensões geopolíticas estão influenciando as projeções de inflação. A intensificação dos conflitos no Oriente Médio e interrupções em rotas de suprimento de energia devem manter as cotações do petróleo sob pressão, o que pode logo se traduzir em inflação australiana nos meses seguintes.

Antes da divulgação, o par AUD/USD recua, aproximando-se de mínimas recentes, em torno de 0,6960, com o dólar norte-americano (USD) estável após a queda recente.

O que esperar dos números do IPC australiano?

Os dados de inflação de fevereiro devem mostrar pressões de preço amplamente estáveis, mas ainda acima da meta de 2%-3% do RBA. O consenso de mercado é de inflação anual em 3,8% pelo terceiro mês consecutivo, com a leitura mensal em torno de 0% após 0,4% em janeiro. O indicador de inflação preferido pelo RBA, o CPI com média arredondada (Trimmed Mean CPI), deve permanecer em 3,4% YoY.

No entanto, é preciso interpretar os números com cautela. A leitura de fevereiro ainda não reflete totalmente o recente aumento nos preços de energia impulsionado pela crise no Oriente Médio e pelas interrupções no estreito de Hormuz.

Segundo a Westpac, os preços de combustível caíram no período, o que mascarou parcialmente as pressões inflacionárias subjacentes. Em termos de componentes, custos ligados à moradia, como aluguel e eletricidade, continuam subindo, assim como educação e vestuário, enquanto reduções nos custos de combustível e viagens ajudam a conter a inflação geral.

Olhar para frente revela riscos inclinados ao lado de alta. A Westpac prevê inflação de aproximadamente 4,6% YoY no segundo trimestre, devido ao choque energético. Embora o impacto direto sobre a inflação subjacente deva ser mais limitado, efeitos de segunda ordem por salários e expectativas de inflação continuam como preocupação-chave.

Nesse contexto, os mercados continuam precificando uma tendência hawkish do RBA, com expectativas crescentes de novas altas de juros nos próximos meses.

Além disso, recomenda-se cautela na leitura de impactos. Um resultado dentro do esperado pode ter impacto limitado sobre o AUD, pois já se sabe que a inflação ligada à energia ainda pressiona os índices. Um resultado acima do esperado reforçaria a expectativa de novo aperto monetário pelo RBA e apoiaria o dólar australiano. Por outro lado, uma surpresa de baixa poderia pressionar o AUD a curto prazo, embora as perdas devam ser limitadas, já que o mercado espera ainda uma elevação na inflação impulsionada pelos custos de energia.

Em termos mais amplos, a direção do AUD/USD dependerá não apenas dos dados domésticos, mas também do sentimento de risco global e de desenvolvimentos geopolíticos, que continuam a moldar as expectativas de inflação e o cenário de política monetária.

Visão técnica

Na configuração de 4 horas, o AUD/USD apresenta viés ligeiramente bearish, assim como ocorre com a tendência de queda de uma linha de resistência descendente, com o par operando abaixo da média móvel simples de 100 períodos (SMA) em 0,7059. A SMA vem caindo, indicando que o lado vendedor ainda tem controle após a recente correção do patamar próximo de 0,7187. O RSI fica próximo de 40, sugerindo pressão de baixa, mas sem estar em zona de sobrevenda.

Suporte imediato fica em torno de 0,6950, seguido por um segundo suporte em 0,6900 caso a venda se intensifique. Do lado oposto, a resistência inicial fica perto de 0,7060, alinhada à SMA de 100 períodos; ultrapassar essa zona abriria caminho para a zona da linha de tendência em torno de 0,7068, enquanto não superar esse patamar mantém foco nos suportes de 0,6950 e 0,6900.