FX da Zona do Euro Hoje: a pausa do BCE está sob escrutínio

O euro permanece estável frente ao dólar, negociado perto de 1,1710, com mercado em expectativa antes da reunião do BCE. A expectativa é de manutenção de taxas, embora sinais macro e tensões políticas na França possam influenciar a direção após as falas de Lagarde, com Frankfurt, Washington e Paris observando.

Mercados esperam amplamente que as taxas permaneçam inalteradas, com a taxa de depósito em 2,00% e a principal refinanciamento em 2,15%.

Por trás desse cenário de aparente letargia, há um fluxo de sinais de política monetária, projeções econômicas e incertezas políticas, particularmente na França, que podem impactar o euro durante a coletiva de imprensa da presidente do BCE.

Um status quo amplamente esperado, com ressalvas

Após oito cortes seguidos desde junho de 2024, o BCE interrompeu o ciclo de flexibilização em julho. A visão geral aponta para mais uma pausa na reunião de setembro, sem alterações nas taxas, segundo economistas consultados pela Reuters e citados pela Morningstar.

Para analistas como Michael Brown, da Pepperstone, o ciclo de facilitação parece encerrado, uma opinião compartilhada por uma parcela considerável da comunidade, com 66 de 69 participantes prevendo manutenção.

Já Konstantin Veit, da Pimco, aponta que o BCE atingiu o fim do ciclo de alívio, tornando difícil justificar novos movimentos a curto prazo.

Inflação sob controle e crescimento resiliente

O ambiente macro recomenda cautela, não ações rápidas. A inflação da zona do euro ficou em 2,1% em agosto, segundo estimativas rápidas da Eurostat, enquanto a inflação subjacente caiu para 2,3%, abaixo das previsões.

Esses números fortalecem a abordagem de “reunião por reunião” do BCE. Em termos de crescimento, as projeções devem permanecer estáveis, com expectativa de 0,9% de PIB em 2025 e 1,1% em 2026.

O PMI composto subiu para 51,0 em agosto, o maior em um ano, com o setor de manufatura de volta aos domínios de expansão pela primeira vez em três anos, contribuindo para mitigar temores de estagnação.

O fator político francês: uma sombra no quadro

A estabilidade aparente do mercado não anula fragilidades políticas. Em França, a recente perda de confiança do Primeiro-Ministro no Parlamento reacende preocupações entre investidores.

Embora Emmanuel Macron tenha nomeado um novo Primeiro-Ministro, ainda haverá votação parlamentar crucial. A situação permanece instável.

Os spreads entre bonds franceses e alemães reduziram, mas não atingiram níveis de estresse. A relação entre dívida francesa e italiana evidencia um prêmio de risco mais alto na França, com rendimentos de 10 anos franceses acima dos italianos pela primeira vez em duas décadas.

Lagarde provavelmente será questionada sobre o tema na coletiva, porém não é provável que haja promessas de ações vindouras, como o uso do Instrumento de Proteção de Transmissão, especialmente porque a França continua com déficit excessivo.

O euro diante do comércio e das incertezas de mercado

Outro ponto de atenção é o comércio internacional. Embora o acordo UE-EUA tenha reduzido riscos de retaliação, empresas europeias, principalmente em automotivo, farmacêutico e semicondutores, ainda enfrentam tarifas elevadas.

Eventuais aumentos de impostos sobre importações de produtos chineses ou indianos, sob pressão dos EUA, podem complicar ainda mais o cenário comercial da zona do euro.

No câmbio, o euro continua sustentado por spreads favoráveis frente ao dólar, mesmo com a distância se estreitando perto da reunião do Fed em 17 de setembro.

EUR/USD: análise técnica e precauções antes de um dia decisivo

O par EUR/USD tem corrigido para baixo desde terça-feira, mas a tendência de alta permanece intacta. O EUR/USD encontrou resistência em torno de 1,1800 desde julho, enquanto as quedas são moderadas, seguindo uma linha de alta desde março.

A agenda de quinta-feira, com a reunião do BCE e o dado de inflação dos EUA, pode oferecer catalisadores para romper a consolidação recente e indicar uma tendência de curto prazo mais clara.

Um rompimento acima de 1,1800 pode mirar 1,1900, enquanto uma queda abaixo pode favorecer uma reversão para 1,1600 e, em seguida, a média móvel de 100 dias, em torno de 1,1527.

A reunião do BCE: pouca expectativa, mas surpresas possíveis

À primeira vista, a reunião de setembro não deve trazer mudanças relevantes. No entanto, em um ambiente onde cada palavra de Lagarde pode mover os mercados, o status quo já é por si um evento.

A estabilidade atual esconde um BCE atento, que caminha entre normalização, pressões políticas internas e incertezas geopolíticas. O próximo passo do euro depende tanto de Frankfurt quanto de Washington — e possivelmente de Paris.