Futuros do Dow Jones (DJIA) avançaram cerca de 1.200 pontos nesta quarta-feira, elevando-se quase 2,6%, após uma virada diplomática de última hora que impediu uma escalada potencialmente catastrófica no conflito entre EUA e Irã. Os contratos futuros do S&P 500 subiram cerca de 2,4%, enquanto o Nasdaq Composite liderou com ganhos próximos de 2,8%.
O impulso veio depois de Trump anunciar, ainda na noite anterior, a suspensão de ameaças a infraestruturas civis iranianas por duas semanas. Na manhã desta quarta-feira, ele informou que os EUA trabalhariam com o Irã para remover material nuclear do país e que haveria negociações sobre alívio de tarifas e sanções.
Ceasefire fechado no último momento
O cessar-fogo foi mediado pelo Paquistão, cujo primeiro-ministro, Shehbaz Sharif, pediu ao presidente Trump para adiar o prazo e incentivou o Irã a reabrir o Estreito de Hormuz como gesto de boa-fé. Trump descreveu o resultado como uma “trégua em duas frentes” e disse que o Irã apresentou uma proposta de 10 pontos que chamou de “base viável para negociações”. O ministro das Relações Exteriores iraniano Abbas Araghchi confirmou que a passagem segura pelo Estreito poderia ocorrer por duas semanas mediante coordenação com as forças armadas do Irã. Delegações de ambos os lados devem chegar a Islamabad na sexta-feira para as primeiras conversas diretas desde o início do conflito, no fim de fevereiro.
Queda do petróleo com alívio das tensões
O impacto mais imediato foi no mercado de petróleo, com o WTI caindo mais de 17% para cerca de US$ 93 por barril, a maior queda desde 2020. A derrocada ocorreu após semanas de preços elevados impulsionados pelo fechamento quase total do Estreito de Hormuz, que permite o trânsito de cerca de um quinto da oferta mundial de petróleo. A reabertura, mesmo que condicionada e temporária, gerou uma liquidação maciça do prêmio de risco da guerra que elevara o WTI acima de US$ 115 no início desta semana. O Brent para entrega em junho caiu mais de 16% para cerca de US$ 92.
A MarineTraffic confirmou que os primeiros navios já passaram pelo Estreito nesta quarta-feira. Especialistas do setor disseram, porém, que o tráfego como um todo ainda não se recuperou de forma significativa, e a gigante de transporte Maersk informou que não fará mudanças em seus serviços até novas avaliações de risco.
Essa queda no petróleo refletiu diretamente no sentimento das ações. Com custos de energia mais baixos, as preocupações com estagflação diminuem, reacendendo a expectativa de que o Federal Reserve possa reduzir as taxas de juros ainda neste ano. O VIX caiu cerca de 15%, para perto de 22, sinalizando menor demanda por proteção de carteira.
Vencedores e perdedores da trégua
O rali pré-mercado foi liderado por setores mais atingidos pela guerra. As ações de semicondutores, vulneráveis a interrupções na cadeia de suprimentos, subiram com força, com o ETF VanEck Semiconductor (SMH) avançando quase 5%. Broadcom (AVGO) ganhou cerca de 4% e Micron (MU) subiu 7%. Mercados internacionais dependentes de importações de energia também reagiram positivamente, com ações sul-coreanas em alta de 8% e o ETF iShares MSCI Emerging Markets aumentando aproximadamente 5%.
Por outro lado, ações de energia que vinham se beneficiando com o conflito voltaram a recuar no pregão. Exxon Mobil (XOM) e Chevron (CVX) caíram mais de 5%, com traders desfazendo o prêmio de petróleo que havia impulsionado o setor em cerca de 34% em 2026.
Fragilidade da trégua
Apesar da euforia, o cessar-fogo já mostrou fissuras em poucas horas. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que o país apoia a decisão de Trump de suspender ataques ao Irã, mas que o acordo não cobre o Líbano. Isso contradiz parcialmente o que afirmou Sharif, premier do Paquistão, que disse que o acordo valia para “todo o comércio, inclusive o Líbano”.
Os militares de Israel também realizaram o maior ataque coordenado da guerra até agora, atingindo mais de 100 alvos do Hezbollah em Beirute, no sul do Líbano e na região de Bekaa, em menos de 10 minutos. O Ministério da Saúde libanês informou dezenas de mortos e centenas de feridos. O Hezbollah afirmou que, se Israel não cumprir a trégua, haverá resposta na região, incluindo o Irã.
A posição do Irã também aumenta a incerteza. A Marinha iraniana alertou que navios que tentem atravessar o Estreito de Hormuz sem coordenação de Teerã seriam “alvejados e destruídos”, e o Irã suspendeu temporariamente o tráfego na rota, apesar do anúncio da trégua. Enquanto isso, estados do Golfo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Kuwait, relataram novos ataques com drones e mísseis durante a noite, com a Arábia Saudita interceptando nove drones. O vice-presidente JD Vance, em discurso em Budapeste, chamou o acordo de “trégua frágil” e alertou que facções dentro do sistema iraniano teriam mentido sobre a natureza do acordo.
O que isso significa para os mercados
Ed Yardeni, presidente da Yardeni Research, disse que a trégua confirma a visão de que o piso para os mercados de ações está em, reduzindo a probabilidade de recessão nos EUA para cerca de 20% (de 35%). Contudo, ele alerta que “uma pausa de duas semanas não é uma resolução” e que os mercados permanecerão sensíveis a qualquer quebra das negociações. O Russell 2000 segue positivo no ano, com ganhos acima de 5%, enquanto Dow, Nasdaq e S&P 500 ainda registram perdas no acumulado do ano.
O ouro subiu cerca de 2%, para perto de US$ 4.820 por onça, apoiado pela fraqueza do dólar e pela demanda por ativos de proteção. O índice do dólar cedeu mais de 1%, para aproximadamente 98,50, o nível mais fraco em semanas, à medida que a desescalada reduziu a procura pelo dólar.
O risco principal daqui em diante é simples: é uma janela de duas semanas, não um acordo de paz. Se as negociações em Islamabad falharem, se os ataques de Israel ao Líbano provocarem retaliação iraniana que quebre a trégua, ou se o Estreito de Hormuz não abrir de forma relevante, o rali pode inverter tão rapidamente quanto começou.