Dow Jones ignora ‘segunda morte’ do cessar-fogo e foca em dados de inflação

O Dow Jones Industrial Average (DJIA) opera em leve alta de 0,26%, próximo dos 52.600 pontos, duas sessões após atingir um recorde histórico. O índice parece tratar a “segunda morte” do cessar-fogo entre EUA e Irã como um evento já precificado, com o mercado ignorando as declarações do Presidente Trump e as negativas iranianas sobre novas negociações.

Enquanto o índice se recupera de uma queda matinal, o S&P 500 avança em direção a um ganho semanal de 1%. O DJIA, por sua vez, caminha para uma perda semanal modesta, inferior a 1%.

Um cessar-fogo com bilheteria em queda

O Presidente Trump declarou o fim do cessar-fogo na quarta-feira, após o Irã atacar embarcações comerciais no Estreito de Ormuz, e reiterou a declaração em uma postagem nas redes sociais na sexta-feira. Fontes iranianas negaram rumores de novas negociações agendadas para a próxima semana, apesar dos esforços diplomáticos do Catar e Paquistão.

A escalada da tensão é real, com ataques de ambos os lados e a redução do tráfego de petroleiros no estreito. No entanto, o mercado de ações tem demonstrado resiliência. A sessão de quinta-feira já havia registrado alta com a notícia de um possível contato iraniano para negociações, e a repetição do cenário na sexta-feira gerou um leve movimento de compra, em vez de uma fuga para ativos de refúgio.

Cada ciclo de escalada e aproximação diplomática parece exigir um prêmio de risco menor do que o anterior. Essa reavaliação é racional se o conflito permanecer contido nas rotas de navegação do Golfo, mas irracional caso contrário. O mercado, aparentemente, decidiu não precificar o segundo cenário até que ele se concretize.

A verdadeira história da semana está no Nasdaq

A SK Hynix, gigante de semicondutores, foi a protagonista do dia, com suas American depositary receipts (ADRs) abrindo em alta de cerca de 14% após uma captação de US$ 26,5 bilhões. O desempenho da empresa abalou o setor de memória nos EUA, com Micron, Marvell e Intel registrando quedas.

Enquanto isso, Nvidia e Meta apresentaram altas significativas, impulsionadas por notícias sobre melhorias na estrutura de custos de inteligência artificial e resultados corporativos positivos. O índice Kospi da Coreia do Sul também subiu.

Essa distribuição de força favorece os índices de crescimento, deixando o Dow Jones, que é ponderado pelo preço das ações, em segundo plano. O índice de blue chips acumula uma leve desvalorização semanal, enquanto o S&P 500 e o Nasdaq Composite registram ganhos.

Especialistas alertam para o risco de concentração no setor de chips e preveem uma possível desaceleração no segundo semestre. Com a euforia em torno das ações de tecnologia, a relativa estabilidade do Dow Jones pode ser vista como uma vantagem.

Um cenário de juros altos sem rede de segurança

O cenário de juros elevados não oferece suporte adicional. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) de maio registrou alta de 4,2% em relação ao ano anterior, e as projeções do Federal Reserve indicam uma taxa terminal de 3,8% para o final do ano. As probabilidades de um aumento de juros em julho estão em torno de 25%, com cortes de juros efetivamente precificados para fora de 2026.

O mercado de ações tem buscado recordes em um ambiente de política monetária restritiva, dependendo exclusivamente de resultados corporativos e gastos em inteligência artificial para justificar novas altas. Essa dinâmica, embora tenha funcionado até agora, concentra o risco de queda em qualquer dado econômico que reforce a possibilidade de aumento de juros.

Terça-feira: O dia decisivo

Os dados de inflação de junho nos EUA, a serem divulgados na terça-feira, serão cruciais. O CPI de maio foi impulsionado pelos custos de energia, e o índice de junho cobrirá o período em que o fluxo no Estreito de Ormuz se recuperou antes de ser novamente interrompido.

Um resultado de inflação acima do esperado pode transformar a especulação de aumento de juros em um cenário base, testando o rali do mercado. Um resultado mais brando, por outro lado, pode estender o movimento de alta por mais duas semanas. De qualquer forma, o número de inflação terá um impacto maior no Dow Jones do que qualquer notícia vinda de Washington ou Teerã nesta semana.

Níveis técnicos do Dow Jones

Resistência: A máxima de sexta-feira em 52.668 pontos é o primeiro obstáculo, seguida pela marca de 53.000 e o recorde de 53.333 pontos. O Índice de Força Relativa (RSI) diário está em processo de desaceleração, indicando a necessidade de um catalisador para um novo avanço.

Suporte: A mínima da sessão em 52.410 pontos ancora o nível de 52.400, com a marca de 52.000 abaixo e a Média Móvel Exponencial de 50 dias em 51.126 pontos.

Viés: Alta enquanto 52.400 se mantiver. A consolidação de dois dias sugere absorção, e um reteste de 53.333 permanece o caminho de menor resistência antes dos dados de inflação de terça-feira. Um fechamento diário abaixo de 52.400 seria o primeiro sinal de reversão.