O tabu da conta demonstrativa vs. conta real

Existe uma discussão muito acirrada entre os traders iniciantes e até os mais experientes a respeito da conta demonstrativa: uns defendem a tese de que o uso da mesma não transmite a verdadeira sensação e sentimentos a flor da pele que a negociação real do mercado propõe, enquanto outros acreditam ser de suma importância para o aprendizado.

Esse debate por muitas vezes acaba transmitindo ideias que, ao meu ponto de vista, podem ser prejudiciais e fatais para quem está dando os primeiros passos no mercado financeiro.

E por isso, é válido levantar alguns pontos interessantes e muito importantes a respeito disso.

Toda profissão requer uma preparação

No Brasil, os leigos em mercado financeiro ainda enxergam investidores/traders como “loucos”’ ou “apostadores”’, tanto que, a maioria esmagadora possui um preconceito a respeito da ideia de pagar por um curso ou treinamento individual sobre negociação de ativos financeiros, contudo, o que essas pessoas não sabem é que ser um trader é uma profissão, e assim como as demais, exige uma preparação que demanda alguns meses ou até mesmo anos de estudo e prática para a efetiva consistência nos resultados.

É claro que, o volume de informações disponíveis sobre leitura de mercado é diverso por conta da internet, entretanto, para quem pretende iniciar de maneira objetiva e correta, pegar um pouquinho dali ou aqui pode ser ineficiente ou até mesmo complicado para organizar os estudos por estar sujeito a pular etapas de interpretação gráfica, de psicologia etc.

No final das contas, esse conhecimento amplo e descentralizado leva as pessoas a procurarem uma preparação qualificada com profissionais do ramo e o dito “curso de mercado financeiro“’, assim como em qualquer outra profissão.

O uso de contas demonstrativas no processo de aprendizagem

Um Psicólogo Cognitivo de Harvard chamado Howard Gardner descreveu em seu livro ‘’5 Mentes Para Futuro’’, que existe um imediatismo enraizado no comportamento de quem inicia determinado estudo de qualquer natureza.

O psicológico usa como exemplo alunos que estão cursando Direito que contrariam seus professores e defendem causas com argumentos sem nexo, isto é, fora do que é reconhecido como correto em âmbito legislativo.  Partindo daí, podemos usar a visão que a psicologia tem a respeito sobre o “EGO”’: Nós temos o hábito de tentar provar que estamos certos a respeito de algum assunto, mesmo que contrarie a razão ou a realidade sobre determinado assunto.

Mas, o que isso teria haver com o debate sobre o uso de contas demonstrativas? É simples. A ideia de ser um trader requer uma preparação (aprendizado) antes da prática, você precisa entender que o mercado respeita determinadas normas, que existe uma ordem natural dos preços e que existem fatores importantes para demonstrar ao trader possíveis pontos de compra ou venda de acordo com o sentimento e decisão dos grandes players.

Caso o trader não respeite essas normas e tome decisões baseadas naquilo que acredita – ou pensa que esta vendo -, toma aquilo como verdade e não o que lhe é ensinado, o resultado é inquestionavelmente uma sequência devastadora de perdas.

Neste sentido, fazer o uso da conta demo no início da trajetória como trader é importante para evitar essas gafes resultantes do imediatismo de ver logo o resultado e também para compreensão “da a regra do jogo”, desde que, tenha uma boa e sólida base educacional para fazer o uso de um bom gerenciamento de risco, que não se trata apenas da colocação do stop loss e sim outros fatores como categorização de risco por lote, taxa de acerto/erro, drawndown, projeção de risco por trade, exposição etc.

Além disso, um bom Trading Plan (Plano de Trade) se faz necessário, com um setup que comporte a sua interpretação gráfica, metas diárias, semanais e mensais, limite de ordens, limite de perdas, fatores para a tomada de decisão etc. E por fim, que trabalhe com números reais, isto é, com valores que tenha em mãos para depositar em uma corretora.

Caso contrário, se negociar com valores que não teria no primeiro momento como, por exemplo, U$10.000 você vai alimentar em sua mente uma falsa realidade de que está ganhando ‘’muito dinheiro’’ e que agora pode depositar em conta real, ou seja, já está lidando da pior forma com um dos fatores psicológicos mais letais que o mercado possui que é a ganância entrelaçada ao imediatismo dos resultados.  Acredito que você já saiba qual é o resultado disso…

O atrito do imediatismo com a educação

Ainda no tema da irracionalidade, prejuízos intelectuais que o uso incorreto da conta demonstrativa pode trazer e sobre a narrativa de que é preciso começar em conta real, um sociólogo e filósofo polonês chamado Zygmunt Bauman já nos alertava sobre os impasses da modernidade líquida que possui uma forte influência do imediatismo em nossas decisões.

Bauman percebeu que as pessoas possuem o hábito de atropelar alguns processos e observações que devem ser feitas antes de passar para o próximo nível. Este tipo de situação se reflete constantemente no mercado financeiro, tanto que, o principal argumento de um educador financeiro que defende a negociação real logo no início é que você precisa sentir o psicológico.

Será mesmo? Se analisarmos o contexto atual onde grande parte das pessoas que iniciam no mercado são justamente aquelas que não tem dinheiro, aqueles U$100, U$200 ou U$300 dólares não farão falta na hora de pagar uma conta em casa ou comprar algum alimento?

Além do mais, a maioria esmagadora inicia no mercado sem ao menos seguir um plano, então: qual seria a diferença dos resultados em uma conta demo ou real? Quase zero. Existe um conceito na psicologia que diz que quando algo importante pra nós está em jogo a tendência é darmos mais importância para aquilo. No mercado financeiro não é bem assim.

 Já presenciei inúmeras vezes, iniciantes com ótimos mentores e que conseguem fechar os primeiros dias ou até meses no positivo, mas por conta da indisciplina e por um ou dois dias de perdas, este mesmo aluno começa a tomar decisões sem pé nem cabeça, como por exemplo, abrir duas ou três ordens sem ao menos olhar pra tela nas próximas horas ou dias para acompanhar a desempenho de suas posições.

Ou seja, a essa altura, esta pessoa já está com o famoso “medo”’ de abrir as ordens, suando frio quando vê o preço oscilando normalmente ou alguns pontos no sentido contrário da sua posição e, inevitavelmente, perdendo o confiança em si próprio.

Neste sentido, mesmo sabendo que o dinheiro é algo importante, quem inicia sem saber aonde quer chegar, sem planejamento, gestão de risco e principalmente o mindset que um trader precisa ter, seja em conta demo ou real, o resultado sempre será o mesmo: uma conta zerada.

Conclusão

O uso de contas demonstrativas deve ser levado a sério por ajudar a criar a mentalidade correta e permitir que se aprimore as técnicas sem custo financeiro. Por outro lado, utilizar conta real só para “sentir o psicológico” sem ao menos compreender a regra do jogo do mercado nunca será algo sensato a se fazer, e quem defende isso, é no mínimo imprudente no ponto de vista de planejamento financeiro pessoal.

Lembre-se que dinheiro não cai do céu, é preciso trabalhar duro para conseguir, e, além disso, o mercado não se importa se você tem um sonho de viver tirando dinheiro dele, ele não se importa com pessoas.

A conta demonstrativa não foi feita para brincar a ponto de sempre quando zerar a conta, recarregar os fundos e operar novamente para ter a falsa sensação de que está ganhando, e sim para que se possa testar suas estratégias e aprimorá-las ao longo do tempo para o efetivo uso em conta real.


Artigo escrito por Sargento Trader


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