O euro opera em meio a nervosismo crescente nos mercados nesta segunda-feira, com o par EUR/USD próximo de 1,1750, recuando ligeiramente cerca de 0,15% na sessão.
A moeda única segue sob pressão após a potencial derrota do primeiro-ministro francês François Bayrou em voto de confiança, intensificando a incerteza política em Paris.
Agora, a atenção se volta para os próximos eventos nacionais marcados para 10 e 18 de setembro, e sobretudo para o desfecho do processo orçamentário de 2026.
Os investidores permanecem cautelosos no curto prazo, à espera de sinais de estabilidade política na França, elemento considerado essencial para a credibilidade fiscal da zona do euro e para o cenário econômico.
Além disso, a reunião do Banco Central Europeu (BCE) na quinta-feira poderia definir o rumo da moeda, embora se espere pouca mudança nas taxas de juros.
Análise técnica EUR/USD: a tendência de alta está perdendo força
EUR/USD no gráfico diário. Fonte: FXStreet
Apesar da incerteza política na França, o euro mantém trajetória de alta frente ao dólar americano (USD) no curto prazo, apoiado pela linha de piso de alta e pela média móvel de 100 dias no gráfico diário.
No entanto, a tendência de alta parece enfraquecer, com o EUR/USD encontrando resistência sólida por volta de 1,1800.
A pair se encontra, assim, dentro de um triângulo ascendente, cuja saída — seja pela parte superior ou inferior — pode ser decisiva para a próxima direção do euro.
Se romper acima de 1,1800, o alvo pode apontar para 1,1900; se romper abaixo, pode favorecer uma reversão rumo a 1,1600, seguido pela média móvel de 100 dias em 1,1527.
Incerteza política e orçamento tenso
Desde a queda do governo de Bayrou, a possibilidade de rápida retomada da estabilidade parece cada vez menor. O presidente Emmanuel Macron busca um sucessor para formar um governo em um parlamento fragmentado, sem maioria clara.
Como aponta a TD Securities, esse processo pode durar de alguns dias a vários meses, deixando a França sob governo interino sem capacidade de aprovar o orçamento no prazo habitual.
O rascunho do orçamento de 2026 deveria ser apresentado ao Parlamento até 7 de outubro, antes de ser encaminhado à Comissão Europeia. Contudo, segundo o Danske Bank, esse cronograma agora parece em risco.
O risco, portanto, é de que o Estado opere temporariamente com base no orçamento de 2025, por meio de uma extensão excepcional, até encontrar uma saída para a crise. Tal cenário prejudicaria ainda mais a posição da França perante as agências de classificação, enquanto um rebaixamento da nota soberana pela Fitch parece provável até o fim de semana.
No aspecto macro, a incerteza política em alta tem impacto tangível, ainda que moderado, sobre a atividade. A Deutsche Bank estima que o clima de espera possa reduzir o PIB em até 0,3 ponto percentual neste ano, ao passo que a economia francesa já aprendeu a operar num ambiente instável.
“O choque de incerteza atual é menos prejudicial do que antes”, escrevem os economistas Yacine Rouimi, Mark Wall e Clément Delucia em nota.
O orçamento de 2026: entre austeridade e negociações explosivas
Apesar de a versão inicial do Projeto de Lei Financeira para 2026 ter sido preparada com antecedência, a sua aprovação está longe de ser garantida. O plano apresentado por Bayrou previa 44 bilhões de euros em economias, com a abolição de dois feriados, congelamento de benefícios sociais e redução de transferências às autoridades locais. Um esforço fiscal ambicioso, mas político explosivo.
A oposição, de esquerda e de direita, prepara-se para o embate. O Partido Socialista pressiona por meta de déficit de 5% do PIB e por uma nova taxação de fortunas, que pode arrecadar até 15 bilhões de euros, embora a viabilidade ainda seja incerta.
Por sua vez, o Rassemblement National, partido de extrema-direita, traçou quatro linhas vermelhas: imigração, custo do governo, fraude e a contribuição da França ao orçamento europeu (aproximadamente 27,6 bilhões de euros). Qualquer acordo exigirá conciliar posições antagonistas, tornando a votação do orçamento altamente incerta.
Euro em busca de estabilidade
Na aproximação das manifestações previstas para 10 e 18 de setembro, o euro opera em zona de turbulência política, onde cada declaração e nomeação pode influenciar sua trajetória.
No curto prazo, a volatilidade deve permanecer contida enquanto o BCE mantiver o rumo e a situação não evoluir para uma crise institucional.
Mas no médio prazo, a capacidade da França de retornar a um caminho orçamentário coerente e de restabelecer a confiança de seus parceiros europeus e dos mercados será crucial para a estabilidade do euro.
Como resumem os economistas da Deutsche Bank, “a França parece ter aprendido a conviver com a incerteza crônica, mas isso não significa que possa ficar parada”.
Para o euro, a paciência do mercado tem limites, o que já começa a se refletir no mercado de bonds, onde a França atualmente toma empréstimos a custos maiores do que a Itália em bonds de 10 anos — pela primeira vez em vinte anos.